O mercado britânico continua a atrair as atenções da indústria têxtil e vestuário portuguesa e nem o Brexit esfriou as relações entre empresas dos dois países . E, com a crescente tendência de aposta na sustentabilidade, Portugal é cada vez mais um fornecedor que faz sentido para o Reino Unido.

“Quando pensamos em Portugal é de forma positiva e pode dizer-se que os fornecimentos são sustentáveis, transparentes e com processos de produção éticos”, afirmou Julie Driscoll, da Ascential, responsável pela feira Pure London, durante a conferência “O retalho no mercado do Reino Unido e o segmento de sourcing de vestuário”, organizada pelo CENIT em parceria com a Anivec. Apesar da tendência cada vez maior nesse sentido, Julie Driscoll garantiu aos empresários presentes que não era preciso entrar em pânico se toda a cadeia de aprovisionamento não for ética,“porque agora temos um mantra: um passo de cada vez. Mais e mais diretores de sourcing estão a trazer as compras para a Europa. Marrocos e Turquia são rivais, mas eu acredito que Portugal tem uma história a contar que esses países não têm”, salientou.

Helena Fernandes, da Câmara do Comércio Luso-Britânica (CCLB) deu conta do grande apetite deste mercado por roupas novas. “A moda, para eles, é um mercado inovador. Gastam em média acima de 100 euros por mês em vestuário, sendo que mais de metade não é usada, mas eles gostam, mesmo assim, de mudar. Uma parte destas pessoas que deitam fora é por nódoas, querem libertar espaço”, referiu. Também da CCLB, Inês Castelo-Brancodetalhou que “o luxo será talvez um sector interessante de explorar. Há marcas que olham para Portugal para produzir”, mas alertou para a necessidade de disponibilizar mais informação e ser mais transparente, para fazer face às preocupações das marcas e dos consumidores.

Do lado das empresas portuguesas, o mercado britânico não é nenhuma novidade e nunca esteve em causa, mesmo com a turbulência do Brexit. Miguel Rodrigues, executivo do grupo Otojal, da área da estamparia, adiantou que é normal “o cliente questionar-se onde é que as coisas são feitas, se o são com ética, se são sustentáveis. Este movimento não é de agora, mas está a intensificar-se. E vai ser como quando o pelo desapareceu das marcas e só demorou três ou quatro seasons”.

Paulo Faria, diretor comercial da Paula Borges Confecções deu conta da experiência da empresa no mercado britânico onde está a operar “há 20 anos”. E salientou que “não basta dizer que somos os melhores se não formos de facto os melhores. É uma grande responsabilidade, porque ao mínimo erro eles não perdoam”. O gestor defendeu que o negócio “tem que dar dinheiro e o mercado de luxo foi uma opção que tomámos há 10 anos. Fazemos quantidades mais pequenas, com valor acrescentado, e, se antigamente só se falava de preço, hoje os clientes nem perguntam”.

Pure London abre espaço para produtores
A Pure London lançou este ano o espaço Origin, para que quem produz consiga estar em contacto direto com os decisores que visitam a mostra. Myriam Carnot Osborn, da equipa de Londres da feira, revelou que o projeto teve início este ano, em fevereiro. “Era tempo de lançarmos este evento de sourcing, o negócio mudou, os consumidores são mais eticamente conscientes e querem saber onde é que vem os produtos”, explicou.

A organização espera que quem se dedica à confeção aproveite a presença de 800 marcas de todos os segmentos para mostrar aquilo que consegue fazer em termos de produção. 51% das pessoas que foram à Pure London visitarem a Origin, adiantou a responsável. Entre as iniciativas deste certame, que irá regressar em julho, está uma passerelle e um programa de compradores VIP, que acompanha os interessados em conhecer parceiros de negócios na feira. “Já temos portugueses, mas queremos ter o maior número de países possível”, afirmou Myriam Carnot Osborn.

Julie Driscoll revelou os principais segmentos de compradores que poderiam interessar às empresas portuguesas e realçou o papel das lojas “indie” que estão a conquistar Londres e que querem produtos originais, em séries mais pequenas. E aí as marcas portuguesas estão bem posicionadas. “Somos uma nação de lojistas, somos resistentes, mas agora os consumidores que costumavam ser fiéis a uma marca mudam constantemente”, alertou a responsável. E isso é algo que exige rapidez na produção e capacidade de adaptação, duas das marcas da produção portuguesa.